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Felipe Soutopor Felipe Souto

Comerciante on-line na Maxibel Móveis para Estética e Salão de Beleza.

Diretor executivo na ABComm/SC.

 Nestes 14 anos vendendo por Internet, uma das coisas sempre me impressionou é como nós, lojistas de e-commerce, gostamos de alimentar os “monstrinhos” que depois nos “devoram”! Sim, acabamos entrando de corpo e alma em modismos sem pensar nas consequências de longo prazo e, quando nos damos conta, o modismo acaba dificultando e encarecendo nossas operações.

 

    O monstrinho mais antigo de todos tem três cabeças e já devorou muitas empresas! Cada uma das cabeças do monstrinho tem um nome diferente: “preço achatado”, “frete grátis” e “10 vezes sem juros”. Este monstrinho é bastante dissimulado! Ele convence o lojista de que se ele não receber carinho e for bem alimentado, a loja será um fracasso! Quando o lojista se dá conta, o monstrinho comeu quase toda (ou toda!) a rentabilidade da empresa e passa a ser bem arisco, fazendo o lojista de refém! Melhor falando, faz vários lojistas de reféns! Como assim?

Não se deu conta o dono da empresa de que, ao mesmo tempo, o monstrinho também convencia o consumidor de que “internet é lugar de achar tudo mais barato, com frete grátis e com parcelas a perder de vista”. Para se ter os benefícios, bastaria o consumidor exigir que o lojista não deixasse de alimentar o monstrinho, senão iria comprar em outro estabelecimento refém!

O monstrinho astutamente deixa o lojista contra a parede: se este aceita as condições impostas por aquele, mancomunado com o consumidor, vai ter que se contentar com a mera possibilidade de receber umas migalhas de rentabilidade, isso se não tiver prejuízo. Se não aceita, muito provavelmente outro lojista, refém do monstrinho, desesperado pelas migalhas para poder pagar os funcionários e fornecedores, irá aceitar os termos indecentes dos conspiradores!

     Notando que os lojistas são presas fáceis, que não prestam atenção ao que estão fazendo com suas próprias lojas, outros monstrinhos passaram a se interessar pelo e-commerce. Um deles é o famigerado site de reclamações! Este monstrinho, assim como aquele de três cabeças, entrou em conluio com o consumidor. Ele ardilosamente ensinou ao consumidor que, utilizando-se do seu site, basta fazer qualquer acusação contra a loja que,  o lojista, apavorado, se permitirá fazer gato-sapato! Se a acusação é verdadeira? Se o moralmente justo seria o consumidor ao menos provar, ainda que de forma precária, a acusação que faz? Se uma acusação falsa pode devastar a reputação de uma pequena  empresa honesta? Este monstrinho pouco se importa!

Ao invés de sufocá-lo financeiramente com uma avalanche de processos judiciais, os lojistas ficaram com medo de serem considerados antipáticos e agora perseguem o status de carinha verde no site do monstrinho. O pior de tudo: este monstrinho é tão cara-de-pau que vende treinamentos caríssimos para os lojistas lidarem com… as reclamações que o próprio monstrinho coleta em seu site! Ah, esqueci de descrevê-lo: ele tem formato de bode… afinal, ele é o famoso “bode na sala” do e-commerce! E do que se alimenta? Esse já não se conforma de querer só a rentabilidade, quer drenar o “sangue” da empresa duma vez!

     O outro monstrinho é o mais curioso de todos, na minha opinião, pois ele tem formato de  sereia: meio lojista, meio monstrinho. Seu nome? Marketplace. Infelizmente, muitos lojistas incautos mergulham de cabeça nos mares da sereia sem conhecer sua real história!

Pois bem, até uns 3, 4 anos atrás, a sereia tinha comportamento exclusivo de lojista, e por anos adorava alimentar o monstrinho das três cabeças e também adorava brincar de vender, para obter um tal de “marketshare”. Muitas lojas presenciais e pequenas empresas sofreram com as irresponsabilidades da sereia! Só que, um belo dia, os acionistas da sereia  começaram a se perguntar onde estava a rentabilidade! Ela teve que contar a eles a dura verdade: o monstrinho das três cabeças havia comido toda a rentabilidade!

Eis que, sob pressão, a sereia teve a brilhante ideia: “e se aquelas pequenas e médias empresas que prejudiquei lá no passado aceitassem agora vender seus produtos na minha grande loja virtual, bastando me dar um bom punhado de rentabilidade em troca? Melhor ainda, posso convencê-las a alimentar o monstrinho das três cabeças no meu lugar!”. Mas como ela faria os lojistas aceitarem tão absurda proposta? Ora, estamos falando de uma sereia! Sereias têm canto e encanto! Por incrível que pareça, milhares de empresários imprudentemente entregaram-se a inglória tarefa de alimentar duplamente o monstrinho sereia e o monstrinho das três cabeças!

Já melhor alimentada e já tendo prendido milhares aos seus encantos, a sereia começou a comportar-se como monstrinho: de forma unilateral passou a fazer diversas exigências absurdas, a prorrogar o dia do repasse do pagamento das vendas efetuadas e a impedir que o lojista tivesse contato diretamente com seus clientes. Muitos que puseram suas próprias lojas virtuais em segundo plano e ficaram dependentes dos encantos ilusórios da sereia e seus “influenciadores mui isentões”, não tiveram forças para reagir e estão aceitando passivamente a situação. A sereia agora dá lucro aos seus acionistas enquanto os pequenos e médios empresários assumem praticamente todos os riscos da venda com mínima rentabilidade!

     E o que dizer quando o monstrinho é gestado pelos próprios lojistas? Pois bem, esse monstrinho geralmente atende pelo nome de “Black Friday”, mas aceita outros apelidos, tais como: “Black Week”, “Black Month”, etc. Tem lojista que ama tanto esse monstrinho que logo logo vai o chamar de “Black Year”. A forma deste monstrinho? Ora, forma de burro! Qual outra forma ele poderia ter?

A história deste monstrinho em forma de burro começa quando vários lojistas tentam copiar uma tradição americana, de se fazer uma grande promoção na última sexta-feira de novembro. Até aí, seria algo bastante saudável, pois ajudaria a fazer caixa com estoques antigos para comprar novos estoques para as vendas de Natal. Só que passado algum tempo, o monstrinho passou a ser gestado: os lojistas começaram a comprar estoque apenas para queimar preços na Black Friday!

Hoje em dia, esse monstrinho é bastante ingrato com seus genitores! Os consumidores, que há anos atrás comprariam de um jeito ou de outro em novembro ou dezembro, com excelente rentabilidade para as empresas, agora deixam de comprar o mês inteiro de novembro aguardando os preços baixíssimos da Black Friday! Sabe aquele décimo terceiro salário que ficava nas lojas durante as vendas de Natal? Sumiu! O mais triste foi ver, em novembro do ano passado, um grande varejista, atuante no e-commerce, fazendo uma grande promoção e jurando de pés juntos na TV que não reduziria ainda mais seus preços na Black Friday! Como diz o ditado: “Quem pariu Mateus que o embale!”

     Se você é um lojista, talvez tenha se lembrado de outros monstrinhos do e-commerce, loucos para se alimentarem de sua rentabilidade. Sim, existem muitos outros deles: “gurus de internet”, serviços, plataformas, etc. Não quer alimentá-los? Pense em longo prazo! Pense nas consequências para o seu negócio! Ponha os custos na ponta do lápis! Não seja imediatista ou “maria-vai-com-as-outras”! De monstrinho a ser alimentado, basta aquele do qual somos obrigados a alimentar com impostos escorchantes…